Veja como foi o Abraço da Guarapiranga 2010

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

O abraço da Guarapiranga reuniu cerca de seis mil pessoas em três diferentes pontos do manancial, na zona sul da capital paulista. Como em todos os anos, a intenção foi alertar a população e as autoridades para a degradação dos mananciais e o risco de colapso no abastecimento de água.

A Rede de Olho nos Mananciais, que reúne ONGs ambientalistas, movimentos sociais, universidades, instituições religiosas e diversas organizações da sociedade civil, promoveu no último domingo (30/05), a quinta edição do Abraço da Guarapiranga. Realizado em três locais diferentes às margens da represa, o evento, reuniu cerca de seis mil pessoas entre o Parque da Barragem na Av. Robert Kennedy, o Solo Sagrado em Parelheiros e o Parque Ecológico do Guarapiranga, no Jardim Ângela. O sol, que brilhou o dia todo, colaborou para o sucesso do simbólico gesto.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

No Parque da Barragem, a Associação Cultural Zumbi dos Palmares organizou rodas de capoeira enquanto a ACM-Jabaquara fez um arrastão com o Maracatu Ilê Aláfia que conduziu as pessoas no abraço simbólico. Houve também passeio ciclístico, plantio de árvores, oficinas de educação ambiental. Grupos de escoteiros, escolas, universidades, clubes esportivos, associações culturais e ambientalistas estiveram presentes nas atividades.

No Jardim Ângela, a tradicional caminhada da Paróquia Santos Mártires até o Parque Ecológico Guarapiranga reuniu católicos e evangélicos das comunidades da região. Lá realizou-se a celebração religiosa e ao meio dia as pessoas deram-se as mãos para abraçar a represa.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Em Parelheiros, no Solo Sagrado (sede da Igreja Messiânica Mundial), a programação começou cedo. As 8h30, os voluntários iniciaram um mutirão de limpeza, seguido por oficinas de reciclagem, ikebana, horta orgânica e atividades culturais. Às 12h00 mais de duas mil pessoas se deram as mãos para abraçar a Guarapiranga.

O Abraço é uma demonstração de carinho da população com a represa, uma festa e também uma manifestação de indignação e protesto, pois o crescimento desordenado das cidades da Região Metropolitana de São Paulo, as ocupações irregulares, os desmatamentos e o despejo de esgoto e resíduos, vêm comprometendo a capacidade de produção, armazenamento, tratamento e distribuição da água.

Atualmente uma enorme quantidade de plantas aquáticas (aguapés e alfaces d’água), boiam na superficie das águas da Guarapiranga. Estas plantas, da família das macrófitas, se reproduzem quando encontram ambientes ricos em fósforo e com grande quantidade de material orgânico, ou seja: esgoto. São um indicador da qualidade da água, que é bem ruim no momento.
Os mananciais de São Paulo também estão ameaçados com a implantação do Trecho Sul Rodoanel, que provocou desmatamentos e tem induzido a ocupação. As organizações ambientalistas denunciam que as compensações ambientais previstas durante o processo de licenciamento da obra ainda não foram implementadas.

Sobre as edições anteriores do Abraço Guarapiranga

2008
A terceira edição do Abraço Guarapiranga foi realizada no dia 1º de junho de 2008, abrindo as comemorações da Semana do Meio Ambiente. Ocorreu simultaneamente em três pontos diferentes ao redor da represa e contou com a participação de cerca de sete mil pessoas. Shows, passeio ciclístico, velejada e expedição fotográfica marcaram a edição 2008 do evento.

2007
No dia 27 de maio 2007, foi realizada a segunda edição do Abraço. A coordenação do evento contou com 35 organizações não governamentais e apoio da Prefeitura de São Paulo. O evento reuniu 5 mil pessoas. Antecedendo o abraço, no Jardim Angela/M’Boi Mirim, foi realizada a romaria Senhora das Águas. No Solo Sagrado, além do ato ecumênico, foi realizado plantio de árvores por autoridades políticas e religiosas. Entre as autoridades presentes, estavam o Prefeito de São Paulo, o Presidente da Sabesp, e todos os subprefeitos da região.

2006
O primeiro Abraço na Guarapiranga aconteceu em 2006 em comemoração aos 100 anos da represa.A iniciativa foi proposta pelo Instituto Socioambiental (ISA) e contou com a adesão de cerca de 10 organizações não-governamentais da região. O evento aconteceu simultaneamente no Parque Ecológico Guarapiranga, no Solo Sagrado e nas proximidades da Barragem da represa. O público estimado naquela primeira edição foi de 4 mil pessoas.

Saneamento: você sabia?

  • 99% das obras no setor de saneamento programadas para o ultimo governo não foram concluídas em 2010.
  • 56% dos brasileiros não possui rede coletora de esgoto (IBGE – PNSB /2008)
  • 92% das casas no NE brasileiro não possui serviços de esgoto.
  • 50,8% dos municípios brasileiros ainda utiliza “lixões” como destino final dos resíduos sólidos (IBGE – PNSB 2008)
  • Cerca de 1/3 das cidades no Brasil tem leis para proteção de mananciais.

Abastecimento: você sabia?

  • 14 mi. de pessoas não têm acesso a redes de distribuição de água. (PNBS 2008)
  • Cerca de 8,4 bi. de litros de esgoto são gerados diariamente no Brasil. (Instituto Trata Brasil)
  • 36% de todo esgoto gerado no Brasil é tratado. (Instituto Trata Brasil)
  • Com 1/2 dos 300 lt de água consumidos por dia por brasileiro já seriam suficientes para sanar as necessidades ligadas a alimentação, higiene e outros. (Instituto Trata Brasil

Usos da água

A água é utilizada, em todo o mundo, para diversas finalidades, como o abastecimento de cidades e usos domésticos, a geração de energia, a irrigação, a navegação e a aqüicultura (pesca). Na medida em que os países se desenvolvem, crescem principalmente as indústrias e a agricultura, atividades que mais consomem água, se comparadas aos outros usos. O cenário de escassez provocado pela degradação e pela distribuição irregular da água, somado ao aumento da demanda em várias atividades que dependem dela, gera conflitos, seja dentro dos próprios países (como discussões para se decidir qual será o principal uso das águas de um rio) ou entre as nações (por exemplo, no caso de bacias hidrográficas se localizarem no território de mais de um país).

No Brasil
A maior demanda por água no Brasil, como acontece em grande parte dos países, é a agricultura, sobretudo a irrigação, com cerca de 65% do total. O uso doméstico responde por 18% da água, em seguida está a indústria e, por último, a pecuária (dessedentação animal).

Historicamente, o Brasil sempre privilegiou o uso desse recurso para a produção de energia, em detrimento de outros, como o abastecimento humano. No Código das Águas, de 1934, o governo chamava a atenção para a necessidade do aproveitamento industrial da água e para a implementação de medidas que facilitassem, em particular, seu potencial de geração de hidroeletricidade. Mas o uso múltiplo das águas das bacias hidrográficas – para a navegação, a irrigação, a pesca e o abastecimento, além da geração de energia – desencadearam conflitos nas regiões onde as pressões sobre a demanda são grandes.

Em 1997, frente a esses problemas, foi decretada a Lei das Águas, que institui a Política Nacional de Recursos Hídricos (PNRH) e cria o Sistema Nacional de Gerenciamento de Recursos Hídricos (SNGRH). Nessa nova leitura da importância da água, em situações de escassez e conflitos de uso, o abastecimento humano e a dessedentação animal tornam-se prioridades, como havia sido estabelecido pela Constituição de 1988. Além disso, a lei prevê a gestão dos usos da água por bacias hidrográficas e a geração de recursos financeiros a serem empregados prioritariamente na própria bacia, por meio da cobrança pelo uso da água onde há conflitos ou escassez.

Origem

A água se originou da liberação de grandes quantidades dos gases hidrogênio e oxigênio na atmosfera, que se combinaram e deram origem aos vapores de água. Durante o período de formação do Planeta, as temperaturas só possibilitavam a água em forma de vapor. À medida que as temperaturas baixaram, os vapores se transformaram em nuvens, que foram atraídas pela gravidade e caíram em forma de chuva na superfície da Terra. Assim, houve acumulação progressiva de água principalmente na superfície – nos estados líquido e sólido (gelo) e simultânea formação de vapor de água pelos mecanismos de evaporação e transpiração dos organismos vivos. A parcela que se infiltrou na superfície e se acumulou entre as camadas de rochas do subsolo formou as águas subterrâneas – os lençóis e os aqüíferos.

A manutenção desse recurso natural acumulado na superfície e no interior do solo é feita através do ciclo hidrológico. Com o calor irradiado pelo Sol, grandes parcelas da massa de água se transformam em vapor, que se resfria à medida que vai subindo à atmosfera, condensa e forma nuvens, as quais voltam a cair na Terra sob ação da gravidade, na forma de chuva, neblina e neve.

Toda a água do planeta está em contínuo movimento cíclico entre as fases líquida, sólida e gasosa. O ciclo representa a interdependência e o movimento contínuo da água nas suas diferentes fases. Os componentes do ciclo hidrológico são:

  • Precipitação – água adicionada à superfície da Terra a partir da atmosfera. Pode ser líquida (chuva) ou sólida (neve ou gelo);
  • Evaporação – Processo de transformação da água líquida para a fase gasosa (vapor d’água). A maior parte da evaporação se dá a partir dos oceanos, muito embora, ocorra evaporação nos lagos, rios e represas;
  • (Evapo)Transpiração – Processo de perda de vapor d’água pelas plantas, o qual entra na atmosfera;
  • Infiltração – Processo pelo qual a água é absorvida pelo solo;
  • Percolação – Processo pelo qual a água entra no solo e nas formação rochosas até o lençol freático;
  • Drenagem – Movimento de deslocamento da água nas superfícies, durante a precipitação

Dicas: em condomínios

  • Atenção aos desperdícios e descuidos no uso da água. Eles tornam o gasto muito maior do que o necessário, ainda mais em condomínios, onde o consumo é maior devido à pressão da água.
  • Uma ideia simples e eficaz é expor a conta de água nos locais de passagem dos moradores, como elevadores e garagens, permitindo que todos se informem sobre os valores de custo e volume consumido.
  • Também vale apresentar ao lado da conta cálculos simples como o volume médio consumido por cada apartamento, o valor correspondente em reais, e as diferentes faixas de consumo do condomínio.
  • O banheiro é o local que mais consome água numa casa. Fique atento aos vazamentos e mantenha a descarga regulada.
  • Uma torneira pingando uma gota a cada 5 segundos representa mais de 20 litros de água desperdiçado em apenas 1 dia.
  • A vazão média de uma torneira é de 16 litros por minuto. Por isso manter as torneiras fechadas quando escovamos os dentes, ensaboamos a louça ou fazemos a barba representa uma boa economia.
  • Procure usar sabão em pedra ao detergente, um grande poluidor de água. O fosfato presente neste produto é o elemento básico na reprodução das algas, o que eleva o consumo de oxigênio da água e a conseqüente mortandade de peixes.
  • Para reduzir o nível de poluentes presentes na água, adquira o hábito de usar quantidades menores de produtos de higiene e limpeza.
  • Reutilizar a água é outra atitude inteligente. A água do último enxágüe da máquina de lavar pode ser usada para a limpeza doméstica, para regar plantas e até para dar descarga nos banheiros.
  • Um banho de ducha de 15 minutos, com o registro meio aberto, consome 243 litros de água. Se fecharmos o registro, quando nos ensaboamos, e reduzirmos o tempo do banho para 5 minutos, o consumo de água total cai para 81 litros.
  • No caso de banho com chuveiro elétrico, também de 15 minutos e com o registro meio aberto, são gastos 144 litros de água. Com o fechamento do registro e a redução do tempo, o consumo cai para 48 litros.
  • Evite usar a privada como lixeira ou cinzeiro. Uma válvula de descarga comum regulada utiliza em média 15 litros por acionamento. Já há no mercado modelos de privadas com caixa acoplada que consomem apenas 6 litros por acionamento.
  • Durante a lavagem da louça, a melhor forma de economizar água é limpar os restos de comida dos pratos e panelas com esponja e sabão e só então abrir a torneira para molhá-los. Depois de ensaboar tudo, abrir novamente a torneira para novo enxague.
  • Em um apartamento, lavar louça com a torneira meio aberta durante 15 minutos utiliza 243 litros de água. Com a economia, o consumo pode cair para 20 litros.
  • Uma lavadora de louças com capacidade para 44 utensílios e 40 talheres gasta 40 litros de água. Por isso o ideal é utilizá-la somente quando estiver totalmente cheia.
  • O mesmo vale para a máquina de lavar roupa e para o tanque. Junte bastante roupa suja antes de usá-los. Não lave uma peça por vez. A lavadora de roupas com capacidade de 5 quilos gasta 135 litros por ciclo de lavagem.
  • Use um regador para molhar as plantas ao invés de utilizar a mangueira. Mangueira com esguicho-revólver também ajuda a economizar. Ao molhar as plantas durante 10 minutos com mangueira, o consumo de água pode chegar a 186 litros.. Com as outras opções, pode-se economizar até 96 litros por dia!
  • Outra dica é apenas regar as plantas pela manhã ou à noite, quando a perda de água pela evaporação é menor, principalmente no verão. No inverno, a rega pode ser feita dia sim, dia não, pela manhã.
  • Se no condomínio há uma piscina de tamanho médio exposta ao sol e à ação do vento, perde-se aproximadamente 3.785 litros de água por mês por causa da evaporação. Com uma cobertura (encerado, material plástico), a perda é reduzida em 90%.
  • Em um condomínio é possível coletar água de chuva para lavar uma área ou regar as plantas. Mas atenção: nas cidades, é sempre bom desprezar a água do início da chuva, pois ela vem com fuligem e outras impurezas que estão no ar.
  • Evite consumir sacolinhas plásticas. Elas correspondem a 7% dos resíduos produzidos pelas pessoas. Além disso, sua decomposição demora mais de 100 anos. Procure reutilizar as sacolinhas que tem em casa, usar caixas de papelão ou sacolas de pano.
  • Pratique coleta seletiva no seu condomínio. A reciclagem é uma maneira eficiente de contribuir na economia de água. Os produtos reciclados consomem menos água que aqueles que são produzidos a partir de matéria-prima virgem.
  • Procure utilizar lâmpadas fluorescentes ao invés das incandescentes. As fluorescentes consomem até 80% menos energia com o mesmo potencial de iluminação. Inclusive há no mercado lâmpadas fluorescentes amarelas, que imitam a coloração mais agradável das incandescentes.
  • Utilize lâmpadas econômicas ou apague as lâmpadas que estão em cômodos vazios. Economizar energia elétrica é uma maneira de economizar água.

Dicas: na cidade

  • Proteja os fundos de vale e topos de morro. Estes locais são Áreas de Proteção Permanente (APPs) e têm papel essencial na produção de água.
  • Se informe sobre a origem e o destino de tudo que você consome. Consumir produtos feitos com métodos ecológicos ajuda a diminuir os desperdícios na cadeia produtiva e os impactos no meio ambiente.
  • Habitue-se a consumir alimentos orgânicos. O método de produção é bem menos danoso ao meio ambiente por não utilizar insumos químicos e hormônios de crescimento.
  • Procure consumir menos carne e mais vegetais. A quantidade de água necessária para produzir um quilo de carne é dez vezes maior do que para produzir a mesma quantidade de grãos.
  • Evite consumir sacolinhas plásticas. Elas correspondem a 7% dos resíduos produzidos pelas pessoas. Além disso, sua decomposição demora mais de 100 anos. Procure reutilizar as sacolinhas que tem em casa, usar caixas de papelão ou as sacolas de pano na próxima compra.
  • Se você detectar um vazamento de água na rua ou calçada, ligue 195 e denuncie. Informe o nome da rua e o número onde está localizado o vazamento. A ligação é gratuita.
  • Se identificar alguma irregularidade na coleta de lixo, na limpeza pública ou na manutenção das árvores de sua rua ou bairro, ligue para a Prefeitura no 156 e informe o problema

Dicas: no trabalho

  • Uma torneira pingando uma gota a cada 5 segundos representa mais de 20 litros de água desperdiçados em apenas um dia.
  • Procure usar sabão em pedra ao invés de detergente. Apesar de “biodegradáveis”, os detergentes são grandes poluidores da água. O fosfato presente no produto é o elemento básico para a reprodução das algas, o que eleva o consumo de oxigênio da água e provoca o aumento da mortandade de peixes. O detergente diluído na água permanece ativo durante vários dias, antes de ser degradado.
  • Use quantidades menores de produtos de higiene e limpeza para reduzir o nível de poluente presentes na água. Uso somente o necessário.
  • Pratique coleta seletiva. A reciclagem é uma maneira eficiente de contribuir na economia de água. Os produtos reciclados consomem menos água do que os produzidos a partir de matéria prima virgem. Além disso, a reciclagem economiza muita energia, que em grande parte é produzida em hidroelétricas, ou seja, por meio de água.
  • Utilize lâmpadas econômicas ou apague as lâmpadas que estão em cômodos vazios. Economizar energia elétrica é uma maneira de economizar.
  • Apague o monitor do computador se for ficar um tempo afastado da máquina. O monitor responde por 70% da energia de um computador. Você pode configurar seu computador para desligar o monitor caso casa fique algum tempo sem utilização.
  • Procure usar pilhas recarregáveis, pois geram menos resíduos que as pilhas descartáveis. Ao usar a bateria do celular, siga as recomendações do fabricante e aumente a vida útil do equipamento. Desta maneira, evitamos a fabricação de mais pilhas e baterias e geramos menos resíduos.
  • Procure utilizar lâmpadas fluorescentes ao invés das incandescentes. As fluorescentes consomem até 80% menos energia e têm mesmo potencial de iluminação. Inclusive há no mercado lâmpadas fluorescentes amarelas, que imitam a coloração mais agradável das incandescentes.
  • Antes de imprimir algum documento do computador, pense se realmente há a necessidade de fazê-lo. A economia de papel é uma forma importante de proteger florestas e a água. Cada tonelada de papel significa o corte de aproximadamente 18 árvores e cada quilo de papel consome cinco mil litros de água.

O Rodoanel Norte é necessário?

por Nabil Bonduki

Publicado na Carta Capital em 27 de abril de 2011

O projeto de implantação do Rodoanel Norte tem gerado muita polêmica, com a oposição de entidades, movimentos e moradores das regiões afetadas, além de ambientalistas. As três audiências públicas já realizadas, nos municípios de Arujá, Guarulhos e São Paulo, revelaram um forte descontamento com a proposta. Em São Paulo, praticamente todos se posicionaram contra a obra, da maneira que está sendo planejada. O evento reuniu mais de mil pessoas.

O traçado proposto pelo governo do Estado ameaça seriamente a Serra da Cantareira que, em 1994, foi declarada pela Unesco uma Reserva da Biofera, com status de Patrimônio da Humanidade. A floresta da Cantareira, com cerca de 80 Km2, em grande parte dentro do Parque Estadual da Cantareira, é hoje a maior floresta urbana do mundo. Além disso, corta regiões altamente povoadas, afetando moradores da Zona Norte da capital paulista e dos outros municípios, estão lutando pela alteração do traçado, ainda está em fase de licenciamento ambiental.

Além do forte impacto sobre serra, a obra deverá gerar o despejo de moradores e a desapropriação de imóveis utilizados para moradia. Apenas em Guarulhos, segundo a prefeitura, cerca de 1,2 mil famílias serão despejadas de suas casas e cerca de 4 mil ficarão isoladas pelo obra viária. O Rodoanel irá passar sobre um reservatório de água no bairro Bananal e por uma estação de tratamento de esgoto no Cabuçu. Em São Paulo, além de um grande número de deslocados – há divergência sobre os números, que poderão ultrapassar cinco mil famílias – quatro escolas deverão ser demolidas, com enorme impacto social.

O traçado proposto desrespeita o Plano Diretor Estratégico e atravessa um trecho da Área de Proteção Integral definida em seu Macro-Zoneamento. Ademais, teme-se que o governo, por economia, acabe por transformar trechos que seriam abertos em túnel por uma via aberta, com maiores impactos ambientais.

Do ponto de vista do planejamento, no entanto, a questão deve merecer uma reflexão mais profunda antes de se discutir traçado e as necessárias compensações sócio-ambientais. Antes de mais nada deve-se avaliar, em um amplo debate público, se o Rodoanel Norte é uma obra prioritária, se o anel em torno da Região Metropolitana precisa ser fechado.

O trecho norte do Rodoanel está orçado em 5,8 bilhões de reais mas, como a grande maioria das obras públicas, deverá custar muito mais do que o previsto. Outro tanto deverá ser gasto no trecho leste. É inadimissível gastar essa quantidade de recursos públicos, em uma cidade com tanta carência na área de mobilidade, sem que exista um plano viário e de transportes que demonstre, efetivamente, a prioridade da intervenção, que tanto impacto negativo deve causar, em relação a outras alternativas.

O fato é que o Rodoanel está dando continuidade à tradicional opção pelo automóvel que desde os anos 1940 predomina em São Paulo. Embora anunciado e divulgado como uma intervenção que visa retirar caminhões que entram desnecessariamente em São Paulo, os dados mostram que estes eram apenas 14% dos que se dirigiam para a cidade antes da inauguração do Rodoanel Oeste. No caso do trecho norte, essa porcentagem é muito menor: apenas 6%. O número é baixo por uma razão muito simples: as rodovias Anhanguera, Bandeirantes, Dutra, Fernão Dias e Airton Senna já estão interligadas pela Rodovia Dom Pedro I, entre Campinas e Jacareí. Ademais, existem outras ligações perimetrais na região, como a ligação entre Franco da Rocha e Mairiporã. Estas estradas podem ser melhoradas e ampliadas a um custo financeiro, social e ambiental muito inferior a do Rodoanel Norte.

São Paulo precisa, antes de mais nada, alterar seu padrão de mobilidade, investindo fortemente em transportes coletivos de modo a torná-lo mais competitivo em relação ao deslocamento por automóveis. Caso se continue a investir na ampliação da malha viária sem priorizar corredores de ônibus, metrô e trens metropolitanos, o circulo vicioso – mais vias, mais carros, mais vias, mais carro – nunca terá fim. O debate sobre o Rodoanel precisa ser debatido nestes termos, pois a capacidade de financiamento do desenvolvimento urbano é finita.

O Rodoanel Norte, além de não ser prioritário, trará impactos sócio-ambientais enormes, aspecto que está mobilizando moradores diretamente afetados e os ambientalistas ligados a Serra da Cantareira. No entanto, o debate dessa obra precisa ser feito por toda a população metropolitana, pois o que está em jogo é o futuro da região como um todo.